Palácio do Café


Construção

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O local escolhido era bem próximo da primeira sede, em amplo tereno junto ao porto. Com vistas para as ruas Tuiuti, Frei Gaspar e XV de Novembro, o lugar da futura Bolsa possuía atributos visuais e comerciais invejáveis na geografia urbana do centro de Santos. Uma das esquinas do terreno constitui o antigo Quatro Cantos, lugar tradicional da cidade, formado pelo cruzamento da Rua Frei Gaspar com a Rua XV de Novembro. A morfologia curva da via nesse ponto oferecia perspectiva do terreno de resultado visual incomum na região central, elemento que não ficou sensível ao projeto. A outra esquina voltava-se para o porto, a cenografia, por excelência, do embarque de café.

Tais referências exerceram grande influência sobre a concepção arquitetônica da Bolsa de Café, em que se buscou a valorização formal das esquinas, demarcadas por balizas verticais da torre e da cúpula, como sinalização visual dos acessos principais. Trata-se de uma tendência recorrente na arquitetura internacional da virada do século XIX para o XX, influenciada pelas Exposições Universais (Paris, 1889 e 1900; Chicago, 1893; e Saint Louis, 1904), quando se dá preferência à barroquização de elementos clássicos, introduzindo volumes arredondados encimados por cúpulas e colunas de ordem colossal.

A construção de um novo e amplo edifício sobrepunha os interesses de acomodação e funcionalidade que o antigo local já não mais comportava, para assumir o desejo em edificar um monumento ao capital cafeeiro. A mesma riqueza que gerou grandes obras urbanas e arquitetônicas no Estado de São Paulo encontrou no projeto da Bolsa de Café a oportunidade concreta de materializar essa ideologia, Ana Lanna (1999, p. 108) qualifica como uma espécie de propaganda edificada:

"Pretendia difundir a riqueza do café atraindo para São Paulo capitais e trabalhadores. Fica patente nas suas intenções o projeto de cidade e de nação que a elite cafeeira formulara 80 anos antes da edificação desse monumento: a construção de uma nação e seu povo com suporte no capital internacional e nos trabalhadores brancos europeus, que aqui viriam, para com suas noções de progresso e civilidade formar o povo brasileiro, amortecendo os efeitos de 400 anos de escravidão".

Guardiões da TorreA construção da Bolsa de Café entrou na agenda nacional das solenidades da Independência. A inauguração do grande edifício em 1922 encerrava o evento das comemorações do Centenário da Independência no Estado de São Paulo, que contava com o empenho direto do governador Washington Luiz para assegurar êxito.

O projeto e as obras ficaram a cargo da Companhia Construtora de Santos, empresa local fundada por Roberto Cochrane Simonsen dez anos antes. Na ocasião, a Construtora de Santos possuía invejável estrutura administrativa, com filiais implantadas nas principais capitais brasileiras, que congregavam simultaneamente grandes obras.

A Construtora de Santos também se empenhou na obtenção de recursos para a realização das obras, já que com o dinheiro conseguido pela Bolsa serviu apenas para a compra do terreno. De certa forma, descumpria-se o artigo 32 da Lei Estadual nº 1416, de 14 de julho de 1914, de criação da Bolsa Oficial de Café, que se destinava à cobrança de taxa 20 réis por saca de café exportado para cobrir as despesas da instituição e para a construção de um edifício próprio. O empréstimo bancário obtido pela Construtora foi repassado à Bolsa e seria amortizado com a emissão de títulos garantidos pela contribuição sobre a saca de café, com aval do Governo do Estado.

“O contrato entre a Bolsa de Café e a Companhia Construtora de Santos - por administração, à taxa de 10% - previa a conclusão
da obra em 27 meses (julho de 1922). O capital para tocar a
obra - estimado em Rs (sic.) 2.000:000$00 - seria provido pela Construtora, que obteve um empréstimo bancário e o repassaria
a sua cliente. No contrato em que se fazia esse repasse, intervieram as Bolsas de Café e de Fundos Públicos, a construtora e o próprio Governo; a Bolsa de Café se tornou tomadora do dinheiro, a juros anuais de 7% com carência de cinco anos e vinte para amortização; dava garantia a taxa de 20 réis por saca de café comercializada, e ficava autorizada a emitir duas séries de 1.000 títulos de Rs (sic) 1:000$000; a Bolsa de Fundos Públicos arrematou a totalidade dos títulos e o Governo ofereceu recursos orçamentários como garantia acessória se faltassem fundos na ocasião dos resgates.“
(Ceva, p.41).

Entretanto, durante o andamento da obra, o orçamento previsto foi-se mostrando insuficiente, contabilizando, na conclusão dos trabalhos, quase o triplo do custo inicial previsto. Alterações no projeto e incertezas do cenário econômico e social levaram Simonsen a cobrar gastos adicionais, custeados freqüentemente pelo Governo do Estado, que totalizaram três grandes empréstimos e fizeram alcançar 5.336:000$000 réis. Com o passar do tempo, o orçamento inicial ficou defasado. Havia sido calculado de 1920 sobre o anteprojeto, universo pouco seguro para organizar uma planilha detalhada da obra. Adotando:

“(...) câmbio de 18 d. (sic) e com salários ainda não alterados diretamente pelo grande volume de obras comemorativas do Centenário do Brasil e indiretamente pela procura da
mão-de-obra na Europa. O edifício, construído de acordo com o projeto definitivo, apresenta alterações radicais sobre o primeiro anteprojeto, como sejam: acréscimo de um andar, elevação da torre, aumento da área de cantaria da fachada, enriquecimento
da parte decorativa do palácio, cuidado especial no acabamento, etc. Essas alterações, majoradas com influência da alta de
salários e da baixa cambial, especialmente sensíveis numa grande obra de arte, aumentados também da execução de múltiplos e delicados serviços não previstos, acarretaram uma elevação considerável mas justificada do orçamento.“
(Relatório de 1923, pp. 56-57)

Todos esses fatores contribuíram para a contenção de verba pelo Governo do Estado, diante das dificuldades no pagamento de serviços extras. Em face das adversidades no cronograma físico-financeiro, a obra foi inaugurada no dia 7 de setembro de 1922 parcialmente concluída. Evento certamente marcado pela relativa frustração da população da cidade, ao ver que boa parte do edifício ainda estava por terminar. Afinal, tratava-se de uma obra complexa, que envolvia acabamento com requinte diversificado. O próprio Simonsen não escondeu a decepção com o andamento da obra, que de certa forma contrariava seus métodos de administração científica e racionalização do trabalho.

Para a inauguração, foram concentrados esforços na finalização da parte principal do edifício - a fachada da Rua Quinze de Novembro e o salão do pregão, principalmente - , sendo o restante concluído no ano seguinte. (Relatório de 1923, p. 57)

Materiais Utilizados

Ainda hoje a incursão ao interior surpreende qualquer visitante pelo requinte e qualidade dos materiais empregados, sobretudo no grande salão do pregão onde no passado funcionou o pregão - diversidade decorativa presente no extenso painel pintado por Benedicto Calixto, na clarabóia de vitral realizado pela Casa Conrado e nos pisos de mármores constituindo um imenso mosaico em diversas cores e formas. Enfim, serviços artísticos terceirizados pela Construtora de Santos visando estabelecer relativa independência da parte civil.

No térreo e na galeria do pregão concentrou-se grande número de empresas especializadas em acabamento: os elementos decorativos de gesso, parte dos lambris de madeira e os vidros coloridos foram feitos pela Sociedade Artes Decorativas de São Paulo; o mobiliário pelas Móveis Blumenschein; outra parte dos lambris e divisórias pela Marcenaria Costillas; a porta de embuia era de autoria da Oficina A. Grandi. O restaurante e os demais espaços do atico foram realizados pela Companhia Bettenfelf, do Rio de Janeiro, que se encarregou de fazer todo o tipo de acabamento: forro, piso, estuque de gesso, pintura, mobiliário etc.

Para a fachada, a Construtora de Santos adquiriu granito-rosa de Salto de Itu, desenhados pelo arquiteto E. Chaineux e executados pelos canteiros Antônio e José Longobardi. O revestimento de argamassa raspada e a modelagem ficaram sob responsabilidade de José Gerbi, e o estuque foi realizado por Nordino Mônaco, baseado no risco do arquiteto Gross. As cúpulas de cobre foram projetadas e executadas por F. Haucke (Ceva, p. 43).

Guardiões da Entrada

Guardiões da EntradaLogo na entrada principal descansando sobre um manto de seda, Ceres, deusa da agricultura, dos cereais e da fertilidade da terra, recepciona a todos que deparam com os imponentes portais do Palácio.

Olhando em direção ao porto, ela observa as sacas de café, que, abençoadas por suas divindades, eram embarcadas às pressas em épicos navios cargueiros para transformar o Brasil no maior império de grãos do mundo.

Ao lado direito de Ceres, com olhar voltado para a cidade de Santos, Mercúrio, deus dos negócios, das mercadorias e principalmente protetor dos comerciantes, admirava atento o crescimento da cidade que enriquecia rapidamente, tornando Santos um pólo mundial no comércio de café. Barões, princesas, reis, comerciantes e outros ilustres visitantes eram abençoados por sua magia. No braço direito, Mercúrio leva o lendário caduceu, para sagrar a fortuna almejada por esses sonhadores negociantes, aos quais, a todo momento, transpunham os portais de entrada do palácio rumo à majestosa roda de negócios do café.

Guardiões da Torre

Guardiões da TorreDirecionados aos pontos cardeais e colocados no topo da torre do palácio, foram construídos quatro grandes símbolos que muitas vezes são confundidos com deuses da mitologia grega. Lá estão representados a agricultura, indústria, navegação e comércio. Mas nenhum registro de fato comprova a relação entre os símbolos do Palácio e tais figuras mitológicas. Exceto na porta de entrada, onde as semelhanças não deixam dúvidas que Mercúrio e Ceres foram nitidamente construídos nos moldes da mitologia romana. Seriam os personagens de uma fábula cafeeira ou, quem sabe, deuses de alguma mitologia desconhecida? Mas o que pode ser afirmado com certeza é que esses seres, santos, ídolos ou divindades durante muito tempo abençoaram nossos grãos, trazendo riqueza, prosperidade e desenvolvimento que transformou não só a cidade de Santos, mas produziu o grande fruto que resultou na quarta maior cidade do planeta, a metrópole paulista.